Primeiras horas do dia, às 5h02min, uma planície deserta em algum ponto do planeta Terra.
– Não entre aí, moço. É perigoso!
O grito ecoou do nada, como se oriundo das aragens de uma manhã recém-saída da madrugada, fugindo da escuridão da noite, nas cercanias de São Roque, interior de São Paulo.
– Calma, só vou olhar..., – respondeu procurando de onde saíra o conselho.
À frente do jovem, a alguns metros, uma arena de pedras, imensas como as que formam um castelo, com uma porta de jacarandá. Acima do puxador de bronze, uma inscrição que advertia: “Não entre. Este lugar esconde mistérios e uma leoa ferida”.
O moço não se amedrontou. Puxou a porta e observou. A visão era magnífica. Uma selva densa, cheia de árvores frondosas, muitas flores, animais de todo tipo. Sombria e atraente, embora deixasse no ar um cheiro forte de perigo, de medo.
O jovem, espírito guerreiro, invadiu o espaço. O portal se fechou atrás dele.
Fascinado, esgueirou-se pelas trilhas em busca de novidades.
Quando passava por uma clareira, ouviu um forte rugido. Seu coração disparou, adrenalina pura. Entrara ali sem escudos, sem armas, estava à mercê da situação.
Um belo animal, forte, fulgurante, semelhante a Aslam, em Nárnia, lançou-se sobre ele, jogando-o ao chão.
O grito da leoa não tinha segredos. Ao tempo em que o arranhava com suas garras afiadas, aparente desprezo pelos homens, que costumava devorar sem piedade, emitia no olhar um pedido: “Vem comigo. Fica comigo. ”
O rapaz lembrou-se imediatamente daquele felino, ao olhar profundamente em seus olhos negros como a noite. Uma recordação instantânea atingiu-lhe os neurônios, enfeitiçando o seu coração. Vidas passadas, um amor de um leão e uma leoa, formas humanas, duas criaturas sujeitas às mazelas da vida de um planeta da Via Láctea. Amores mal resolvidos haviam deixado aquele maravilhoso espécime da fauna sangrando, feridas abertas no tempo, enclausurado naquele espaço misterioso e reservado, fechado a qualquer investida cromossômica XY.
Recordou-se de que tentou resgatar sua infância felina naquele intervalo ido, encoberto pelas passagens de Cronos. Atirou flechas e mais flechas, Cupido incansável, mas acabou vítima de uma das suas próprias setas, calcanhar de Aquiles descoberto.
Suas falas apaixonadas (“Pomba minha, que anda pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me o teu semblante, faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce, e o teu semblante formoso, deixa-me devolver-lhe a inocência perdida”; “Como és formosa amada minha, eis que és formosa! Os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu; o teu cabelo é como cascata cristalina, refletindo luz nos olhos de quem o vê; os teus lábios destilam o mel, fera minha; mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro da inocente paixão”), todo o seu amor, toda a sua dedicação, não desaguaram no mar e ele acabou incendiado por sua própria paixão. A morte foi sua fiel companheira e o levou para longe da amada, sem demovê-la da sua rocha, peito cristalizado, vítima de Medusos.
Mas agora o passado regressava com força, a força de uma leoa enclausurada. O tempo passou e, fora da esfera das horas, ela acabou sucumbindo aos apelos do jovem-leão, esvanecido naquele átimo, vítima de sua própria luta para retirar-lhe as pedras depositadas em seu coração. Qual guerreiro dedicado, tentara abrir-lhe o peito à espada, mas não localizara as feridas que gostaria de cauterizar, suavizar, curar. Sem sucesso e sem vida, afinal.
Mas agora o passado regressava, na forma do rapaz que entrara na sua abóbada, reconhecido de vidas passadas. E a frase ecoava em toda a mata: “Vem comigo. Fica comigo”.
Os deuses do amor têm as suas tragédias, as suas ciladas. Ele realmente amava a doce leoa, porém ela chegara no momento errado. Nenhum átomo de seu corpo mentia sobre isso, mas sentia-se num despenhadeiro. Apesar de novo no espírito, não era mais tão jovem, estava casado, tinha filho, e uma ética moral crucificante. Como poderia encarar mãe, filho, parentes, largando o mundo lá fora e ficando no bosque? Tinha uma vida lá fora sim. Mãe, mulher, filhos, mas como resistir a um pedido feito pelo amor? Maldição do destino. Como dizer não a tudo sem desafiar os seus limites? E como renunciar a um desejo do coração? Questões sem respostas para um amor que fugiu ao controle do tempo, que chegou inesperadamente, numa hora equivocada. Amarras grossas segurando um Titanic. Forte veneno, letal, seja a solução de todos estes males.
Ele abraçou fortemente a leoa, beijou-a intensamente, entregou-se ao Nirvana com ela em prazeres colossais, mas tinha que deixar a arena. Olhos marejados, coração arfando, querendo sair do peito, não conseguia dar a resposta que ela gostaria de ouvir. E certamente ela pensaria: “Desgraçado... igual aos outros. Não me ama de verdade. Não o suficiente para largar tudo e ficar comigo”.
Sim. Entretanto, nenhum deus onipresente, daqueles que conseguem ler pensamentos e o coração humano, iria negar que ele a amava.
Ele certamente iria sair da selva, da arena, mas com o coração apertado, o medo de perder a criatura querida. Assim, só sabia dizer repetidamente à sua leoa: “Por favor, pelos deuses, pelo que você mais acredita na vida, não feche a porta para mim. Suprema deusa, deixe-me vê-la sempre. Quem sabe um dia, talvez em outra vida, enfim a gente fique juntos para toda a eternidade. Pois o corpo não é mais do que uma casca, que um dia liberará o espírito dos amantes, como Romeu e Julieta, que no éter se juntaram um dia. A verdade do meu amor um dia vencerá minhas fraquezas humanas”.
A história não termina aqui. Só os deuses do amor podem prever seu desfecho. Nenhum profeta, nenhum adivinho, seria capaz de tomar as rédeas do tempo para saber em que lugar os mundos podem se juntar. Ou se nunca vão se juntar. A tragédia não queira tomar conta destes seres tão apaixonados, que um dia quiseram se ajudar, se amar, se achar. Oxalá eles achem caminhos que se unam sempre, independentemente de qual página do livro da vida estejam, não importa se virtual ou real, mágico ou terreno.
Dilton Cardoso